CGJ Extrajudicial atende 474 indígenas que buscam averbar etnia no registro civil em SC
Notícias11 de setembro de 2026

CGJ Extrajudicial atende 474 indígenas que buscam averbar etnia no registro civil em SC

Programa Cidadania Originária coletou dados na Aldeia Kondá e no Toldo Chimbangue, em Chapecó

Nesta semana, nos dias 9 e 10 de setembro, os povos indígenas residentes em Chapecó tiveram a oportunidade de solicitar a segunda via de seus registros civis com averbação da etnia à qual pertencem. O programa Cidadania Originária, desenvolvido pela Corregedoria-Geral do Foro Extrajudicial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, realizou coleta de dados e documentos na Aldeia Indígena Kondá e na Terra Indígena Toldo Chimbangue. Nos dois dias, foram encaminhadas 474 novas certidões. Assim, os indígenas terão documentação civil básica que comprova a etnia originária – no caso, a kaingang -, de forma a facilitar o acesso a direitos fundamentais, como saúde e educação.

 

No primeiro dia de trabalho, na Aldeia Indígena Kondá, foram atendidos 92 moradores. Já na quinta-feira, na Terra Indígena Toldo Chimbangue, foram realizados mais 382 atendimentos. A entrega dos novos documentos deve acontecer ainda neste ano. A equipe da Corregedoria Extrajudicial contou com apoio voluntário de delegatários e escreventes, além do cacique (líder indígena local) e de representantes das comunidades indígenas.

 

A corregedora-geral do Foro Extrajudicial, desembargadora Rosane Portella Wolff, acompanhou as atividades. A magistrada destacou a necessidade de os indígenas possuírem o documento averbado para ter garantidos os direitos específicos e facilitar o acesso a benefícios. “É preciso respeitar as origens e a cultura dos povos originários que residem em nosso Estado de Santa Catarina. O Poder Judiciário catarinense reconhece sua responsabilidade social e busca garantir direitos fundamentais e fortalecer a cidadania dos povos originários”, considerou.

 

O coordenador regional da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Duko Kaingang, complementou ao dizer que conceder a tão sonhada cidadania originária aos povos indígenas é um momento histórico. “Incluir na certidão de nascimento a origem étnica do povo ao qual pertence é oportuno e essencial para a identificação correta do indígena. As comunidades indígenas buscam esse reconhecimento há vários anos, não só pelo canto, dança e língua falada, mas para que a documentação civil identifique o povo ao qual o indígena pertence”, celebrou o dirigente, ao destacar a grande importância da medida, principalmente para o acesso às cotas universitárias destinadas a indígenas.

 

Toldo Chimbangue

 

A Terra Indígena Toldo Chimbangue está localizada na linha Sede Trentin, interior de Chapecó. Atualmente, é composta por 180 famílias da etnia kaingang. O cacique Idalino Fernandes conta que muitas crianças nascidas nos últimos anos não têm a cidadania originária reconhecida em documento e que vários idosos não possuem mais seus registros civis, seja por extravio, seja pela ação do tempo. O cacique foi um dos indígenas atendidos nessa quinta-feira, 10. Ele aproveitou a prestação do serviço na escola da comunidade para atualizar seu documento.

 

“A maior preocupação é com nossos jovens. Muitas vezes, pessoas mal-intencionadas se utilizam de nomes indígenas para usufruir de vagas na universidade, por exemplo. Isso, para nós, é um grande prejuízo. Com o documento, não há mais dúvidas. Mesmo que haja mudanças com o passar do tempo, nunca deixaremos de ser indígenas e, com frequência, precisamos comprovar isso. Somos muito gratos pelo fato de a sociedade perceber essa necessidade nossa e vir prestar o serviço”, comemorou Idalino.

 

Nessa terra indígena foram realizados 382 atendimentos. Assim como muitos pais, as donas de casa Lucimara Venâncio e Katiane da Veiga aproveitaram para solicitar a segunda via de suas certidões e de seus filhos Théo e Sara Helena, respectivamente. Lucimara também realizou o atendimento para o filho mais velho, que ficou em casa.

 

“É um direito nosso e das crianças que faz falta no dia a dia. Dessa forma, estamos nos organizando e evitando que nossos filhos passem por situações constrangedoras e que dificultam o acesso a direitos indígenas, como qualquer outra pessoa que busca seus direitos”, ressaltou Lucimara.

 

Aldeia Kondá

 

A equipe permaneceu durante todo o dia na escola da Aldeia Indígena Kondá. Na quarta-feira, 9, foram realizados 92 atendimentos. A comunidade fica na linha Água Amarela, interior de Chapecó. Hoje, aproximadamente 200 famílias vivem no local. Uma característica desse povo é que muitos vieram do Rio Grande do Sul e possuem documentos civis registrados no estado vizinho, o que inviabilizou a requisição da segunda via averbada.

 

Diante da demanda, a desembargadora Rosane se comprometeu a buscar a maneira adequada de garantir esse direito aos gaúchos que vivem na comunidade indígena catarinense. “Vamos dialogar com o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul para uma possível parceria que beneficie esses moradores”, assegurou a desembargadora.

 

O cacique Efésio Siqueira lembra que os moradores da aldeia têm o nome indígena no registro, mas faltava acrescentar a etnia. “A Aldeia Kondá é 100% kaingang. Preservamos a língua materna, a cultura, a dança, a culinária… Nossa cultura é muito forte! Nosso povo enfrenta diversas dificuldades para estudar, por exemplo, quando chega a hora de ir para a faculdade. Até agora precisávamos de cinco assinaturas, de órgãos diferentes, para comprovarmos que somos indígenas. A comunidade está sendo beneficiada com essa ação que está acontecendo. É um grande passo que a comunidade vai dar”, celebra Siqueira.

 

A auxiliar de serviços gerais Marta Garey Salvador veio acompanhada do marido e dos dois filhos mais novos, Emanuel, de nove anos, e Christine Gabriely, de oito anos. Marta aproveitou ainda para fazer a nova documentação de outras três filhas. “A falta de um documento que comprove nossa etnia sempre nos preocupou. A partir de agora, quando perguntarem sobre nossa etnia, teremos como demonstrar de maneira rápida e comprovada. Com frequência passamos por preconceitos. Queremos ser reconhecidos como indígenas! Agora, meus filhos terão documento constando nossa etnia. Isso é muito bom para que não enfrentem tantos problemas quanto eu enfrentei”, relata Marta.

 

Resultado

 

O programa Cidadania Originária acompanha as diretrizes da Resolução Conjunta CNJ-CNMP n. 12/2024, que disciplina o registro civil de nascimento da pessoa indígena e assegura o respeito às especificidades étnicas, culturais e linguísticas dos povos indígenas.

 

Novamente, a Associação dos Registradores de Pessoas Naturais de Santa Catarina (Arpen-SC) foi parceira do Poder Judiciário na ação. “Os registradores civis se sentem orgulhosos de participar novamente e trazer cidadania diretamente à comunidade indígena para que passe a ostentar sua etnia na certidão. Assim, facilitamos a busca por direitos relativos à etnia, bem como por políticas públicas que abrangem os povos indígenas”, avalia o vice-presidente Everson Luís Matoso.

 

A primeira atividade do programa Cidadania Originária, em Santa Catarina, garantiu 738 certidões para moradores da Terra Indígena Xapecó, cuja área abrange os municípios de Ipuaçu e Entre Rios, também no Oeste. A entrega dos documentos averbados aconteceu em dezembro de 2025. No próximo dia 23, está prevista a entrega de outras 263 certidões atualizadas para moradores da Terra Indígena Laklãnõ-Xokleng, localizada no município de José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí.

 

Fonte: TJSC

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